A jovem vienense Anna O. (1859-1936) é considerada a primeira paciente da psicanálise. Foi ela quem descreveu o tratamento psicanalítico inaugurado por Breuer e Freud como “cura pela fala”, isto é, o alívio de seus sintomas – àquela época denominado como histeria – através da fala e elaboração de seus traumas passados.

De forma simplificada é possível apontar que, no começo do século XX, a psicanálise foi colocada em uma posição quase ortodoxa. A configuração das sessões era tecnicamente rígida: 4 paredes, divã, o paciente fala e o psicanalista escuta. Posterior à Freud, uma versão acrítica da psicanálise foi reproduzida pelos psicanalistas que o sucederam. De forma simplificada, é possível apontar que o processo de análise passou a ter como principal função “normalizar” todos aqueles que eram considerados “diferentes”, deturpando o propósito inicial de Freud.

Foi só com Jacques Lacan na década de 40, outro importante expoente da psicanálise, que houve um interesse em questionar o que compõe a fala na “cura pela fala”. Afinal, a fala se limita ao som? Ao verbal? E, se estendido para uma pessoa que não tem voz – uma pessoa surda pode fazer análise?

Na atualidade a resposta é evidente, todos podem ser escutados. Mas por um longo período não houve reflexão acerca do tema, ou consideração a respeito dos que não se encaixavam em uma suposta “normalidade”. Excluía-se, portanto, aqueles que não tinham acesso à fala: surdos, TEA não-verbais, etc.

Lacan foi um dos primeiros psicanalistas a pensar sobre o tema e faz uma importante distinção entre os diferentes tipos de ouvir, na língua francesa: ouïr, entendre e écouter. O termo ouïr se traduz pela ideia de “perceber sons pelos ouvidos”; enquanto entendre é compreendido como ter sua atenção voltada para algo, um ouvir que exige atenção de um outro; já écouter carrega consigo a ideia de escutar, perceber, e é o termo escolhido por Lacan na escuta psicanalítica.

Isto quer dizer que todos nos comunicamos por outros métodos além do verbal: por olhares, expressões faciais, gestos. A fala-comunicação não se limita ao som. A fala se estabelece quando há dois sujeitos que tem a intenção de comunicar algo ao outro.

No caso da surdez o que é colocado em jogo a respeito da constituição/desenvolvimento da pessoa surda é, sobretudo, um ouvir que não se restringe à audição e um falar que não exige a oralidade, mas sobre as interações com o outro, trocas e respostas a respeito daquilo que pertence a relação da pessoa surda com seu meio ambiente e daqueles que a cercam. 

Desse modo a pessoa surda é, de fato, singular, porém não necessariamente destoante, já que é próprio da psicanálise a compreensão de que toda pessoa se constitui sempre de modo único e é, portanto, singular.

É interessante notar que o processo de inclusão na psicanálise, assim como a proposta de um campo que leve em conta a equidade se dá em diferentes frentes e adapta as configurações ortodoxas da técnica e instrumentos da psicanálise. Alguns exemplos contemporâneos são:

– o trabalho dos ATs para fora de um consultório rígido;

– a clínica ampliada como diretriz norteadora da política de saúde mental;

– o não uso do divã no caso de pessoas surdas que demandam uma comunicação visuo-espacial e, portanto, olho-no-olho;

Essas são algumas das adaptações que apontam para a elasticidade e flexibilidade da técnica necessária para a prática da psicanálise. Não buscamos “consertar” o indivíduo. A psicanálise se interessa, sobretudo, por dar apoio à singularidade e particularidade de cada indivíduo que acolhemos.

Fábio Kim Imai – CRP 06/204174

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