
O Dr. Drauzio Varella, em entrevista com a médica pediatra Dra. Denise Katz, aborda os cuidados a serem tomados para evitar acidentes com as crianças. A melhor forma de evitar acidentes é preveni-los.
Drauzio Varella
Como a grande maioria deles acontece em casa, algumas providências precisam ser tomadas com o intuito de impedir que as crianças se machuquem. Mas sempre é bom lembrar que acidentes não ocorrem só dentro de casa. Acima dos 6 anos, acidentes de trânsito são causa importante de mortalidade infantil. Criança só deve sair de casa no banco de trás dos carros; bebês até 1 ano numa cadeirinha apropriada, firmemente presa com cinto de segurança e, acima de 1 ano, numa cadeirinha maior, mais adequada ao seu tamanho. A partir dos 8 anos, pode sentar-se diretamente no banco de trás, nunca no da frente e sem colocar o cinto de segurança.
Seguem as dicas:
Tomadas – Alguns pais não cobrem as tomadas achando que, se tomarem um choque, as crianças aprenderão a não colocar o dedo ali. Embora esses choques elétricos sejam fortes, intensos, a maioria deles não causa grandes complicações. No entanto, em bebês de 10kg, 11kg, podem provocar uma arritmia cardíaca grave, porque a corrente elétrica que entrou pelo dedinho colocado no buraco da tomada, passa não só pelo braço, mas também pelo coração, provocando uma desorganização no batimento cardíaco conhecida como a arritmia, às vezes fatal. Por isso, as tomadas elétricas devem estar sempre vedadas. Não com fita crepe ou outra fita adesiva, é preciso bloquear as tomadas de forma a torná-las seguras.
Janelas – É imprescindível colocar telas ou grades nas janelas, em toda sua extensão. As telas de proteção são tão indispensáveis quanto afastar os móveis de perto das janelas. Mesmo o bebê de dez, 12 meses que não anda sozinho, consegue empurrar uma cadeira e nela subir desde que encontre alguma maneira para apoiar-se.
Cozinha –Por ser um lugar com muitas portas de armários que a criança adora abrir e fechar, desinfetantes e outros produtos cáusticos devem ser guardados em prateleiras bem altas e trancados com chave que não pode ficar a seu alcance. Os cabos das panelas devem estar sempre voltados para dentro. Cabo virado para fora do fogão pode chamar a atenção da criança que resolve pegá-lo. Com ele vem a panela e o que tem dentro que cai sobre a criança, quase sempre provocando queimaduras graves. Colocar uma grade na entrada da cozinha é ótima medida para impedir que a criança entre num dos recintos mais perigosos da casa.
Queimaduras – Se a criança se queimou, a primeira providência é colocar a área queimada na água fria para neutralizar a sensação térmica. Isso ajuda a acalmar a criança. Como a dor volta instantaneamente quando o contato com a água é suspenso, recomenda-se cobrir a lesão com um pano limpo – qualquer pano – e levar a criança para um serviço médico imediatamente, pois os pais não têm condição de avaliar se a queimadura é de primeiro, segundo ou terceiro grau. É comum as pessoas usarem receitas caseiras (pasta de dentes, pó de café, manteiga) e com isso só pioram o quadro. Como não há a menor comprovação de que qualquer um desses produtos tenha propriedades terapêuticas, o melhor é manter a ferida limpa e levar a criança ao pronto-socorro.
Produtos de limpeza e remédios – O perigo não está só nos produtos de limpeza (especialmente a água sanitária), mas também nos remédios, pois a criança pode achar que comprimidos são balinhas e resolve experimentá-los. Numa situação dessas, não adianta dar leite ou água, nem provocar vômitos, uma medida ineficaz e desaconselhada, porque a substância cáustica queimará duas vezes o tubo digestivo: ao entrar e na saída. A única coisa a fazer é levar a criança e a embalagem do produto para o hospital.
Batidas na cabeça – Criança bate a cabeça, mesmo. Bate porque proporcionalmente ela é maior do que as outras partes do corpo. Raramente, porém, a batida provoca uma fratura. Mesmo assim, a recomendação é observar a criança que bateu a cabeça e relatar o fato para o pediatra. O sinal mais importante é o vômito. Vomitou nas primeiras 24 horas depois do acidente, os pais devem levar a criança para o hospital, uma vez que isso pode ser uma manifestação precoce de complicações como fratura, sangramento e elevação da pressão intracraniana. Outra medida importante é não deixar a criança dormir. Como a sonolência pode ser um sinal de que tenham ocorrido lesões mais graves, o ideal é manter a criança acordada. Se não for possível, ela deve ser despertada a cada 15, 20 minutos para ver como reage quando conversam com ela ou lhe perguntam alguma coisa. Os pais podem ter certeza de que nada de mais grave aconteceu depois de 24 horas de observação.
Dentes quebrados e cortes – É comum a criança cair e quebrar um dente. Mesmo que seja um dente-de-leite, ela deve ser avaliada por um especialista no assunto, porquê da integridade da primeira dentição depende o bom desenvolvimento da dentição. Embora os cortes, especialmente na cabeça, sangrem muito, não se deve passar mertiolate, mercúrio-cromo ou água oxigenada no ferimento. O certo é lavar a ferida com água corrente e depois comprimi-la com um pano limpo para estancar a hemorragia. Há pessoas que põem pó de café, talco, serragem, por exemplo, para coibir o sangramento. Isso não deve ser feito nunca por causa do risco de contaminação. Se a compressão não for suficiente para estancar o sangue, os pais precisam levar a criança para o hospital a fim de suturar a ferida. Isso pode ser feito com calma, sem afobação, mas comprimindo sempre o ferimento.
Crises convulsivas – A crise convulsiva mais comum nas crianças é provocada pela febre alta. A convulsão febril clássica é benigna e caracteriza-se por abalos e perda de consciência. No entanto, crises prolongadas podem causar lesões no sistema nervoso. Criança que teve convulsão deve ser logo socorrida e levada ao médico. Enquanto dura a crise, porém, os pais devem deixá-la numa posição o mais confortável possível para que possa respirar. Nada de puxar a língua para fora, nem colocar uma colher na boca, jogar água no rosto ou virar a cabeça da criança para baixo. Da mesma forma que apareceu, a convulsão vai passar espontaneamente, sem que seja necessário realizar qualquer uma dessas manobras. Mas, tão logo passe a crise, os pais precisam procurar assistência médica, para que a criança seja devidamente medicada.
Quedas – Crianças que andam, também correm e caem. Quando se machucam, sabem dizer onde está doendo. Aí, é preciso distinguir se não foi nada, ou se sofreram uma entorse, uma fratura ou uma luxação. Ao contrário dos ossos dos adultos que se partem totalmente, nas crianças, a fratura nem sempre é completa nem provoca lesões aparentes. Por isso, a criança que se queixa de dor depois de uma queda deve ser levada ao pronto-socorro para verificar se não apresenta uma lesão óssea.
Afogamento – Tão logo a criança que caiu na piscina ou bebeu muita água no mar seja retirada da água, é indispensável garantir que as vias aéreas estejam liberadas para poder respirar livremente. Se estiver respirando, deve-se deitá-la de lado e mantê-la tranquila até a chegada do serviço de resgate, que atende pelo número 193. Se não estiver respirando, é preciso iniciar as manobras de respiração boca-a-boca. Numa situação como essa, nunca se deve provocar vômitos. A água que está dentro da boca da criança deve ser retirada manualmente ou colocando sua carinha de lado para que verta normalmente.
Drauzio Varella
É médico cancerologista formado pela USP, foi um dos fundadores do Curso Objetivo, onde lecionou Química durante muitos anos.
Denise Varella Katz
É médica pediatra, membro do Departamento de Pediatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo e do Hospital Albert Einstein (SP).